9/2/10
O Disco Voador da Ipanema
Uma das histórias no Rádio em que estive envolvido e que mais me marcou aconteceu no tempo da Ipanema. Depois de três anos fazendo o horário da manhã, das seis às 10 horas (quase sempre eu gravava no dia anterior a programação das seis às sete horas, para não ter que chegar tão cedo), decidi mudar. Acertei com o Nilton Fernando, o gerente da Rádio, que passaria a fazer a madrugada, entre meia noite e três da manhã, logo depois do horário da Katia Suman.
Foi uma beleza! Dois meses depois que eu entrei no ar no novo horário, a rádio passou para o primeiro lugar no IBOPE. Não era pouca coisa! Até me rendeu um convite para ir trabalhar na rádio Cidade. E o esquema de programação era aquele de sempre: Eu conversava com os ouvintes pelo microfone e eles comigo pelo telefone. Aí eu anotava as músicas que eles pediam e as rodava, apresentava algumas notas do dia que considerava importantes, garimpava com amigos e ouvintes algumas musicas diferentes e pronto. Mas sempre participava da loucura geral que se estabelecia nas madrugas da Ipanema. Era bem isso!
Mas quem está no rádio, no ar, sozinho num estúdio, tem sempre aquela desconfiança: Será que tem mesmo alguém me ouvindo? Quantos serão? A gente fala para o nada, principalmente na madrugada, pois na emissora tem apenas o guarda lá na portaria. E isso se torna mais grave numa noite de domingo para segunda-feira, quando todo mundo está mais interessado em se preparar para o reinicio das atividades no outro dia pela manhã.
Assim sendo, cheguei na rádio à meia noite de um domingo, entrei no ar e coloquei uma música. Como sempre, o telefone tocava muito, embora nestes dias diminuísse um pouco. Num dos telefonemas, um maluco de um ouvinte afirmava estar vendo umas luzes se movendo no céu, lá pelos lados do Morro do IPA. Gostei daquela piração, dei uma conferida na janela da rádio de onde se podia observar a região referida e, de certa forma, também me pareceu existir uma estranha luz se movendo por lá.
Não tive dúvidas. Como naquela época estávamos vivendo o Plano Cruzado, do falecido ministro Dilson Funaro, voltei ao ar, abri o microfone e lasquei:
- Um ouvinte me ligou há pouco dizendo que existe uma luz se movendo no céu, lá pelos lados do Morro do IPA. Bem que poderia ser um disco voador, que veio de outro planeta nos fazer uma visita e revelar como é que se resolvem as questões econômicas por lá. Será que eles tem Plano Cruzado e estas coisas? Pô, disco voador, vem aqui na rádio me explicar isso! Nós temos um espaço bem grande para estacionar aqui ao lado do prédio da Rede Bandeirantes. Inclusive tem um instrumento bem parecido com um disco voador (a antena parabólica utilizada para captar o sinal da TV e das rádios da rede).
Coloquei outra música e continuei atendendo os telefonemas, que começa-ram a se multiplicar de maneira fantástica. Era gente que estava vendo também as tais luzes se movendo, uns estavam de lunetas, binóculos e sei lá o que mais. Era ouvinte das cidades da grande Porto Alegre dizendo a mesma coisa, todos extremamente excitados com a história. De novo entrei no ar, satisfeito com a onda formada.
- Pessoal, tem mais gente vendo. Que legal! Reforço o convite para o disco voador vir aqui nos visitar. Que tal uma entrevista com o extraterrestre?
Os telefonemas continuaram e a brincadeira foi aumentando, envolvendo muita gente na cidade. Aí eu comecei a levar medo, porque me dei conta do rolo que poderia estar sendo armado. Imagina só, um maluco numa rádio com a melhor audiência do horário, na madrugada, dizendo que tinha um disco voador sobrevoando a cidade. Some-se a isso a maluquice geral das pessoas – especialmente dos ouvintes daquele horário – e pronto! Estava feita uma grande e séria confusão.
Passei a tentar contornar a situação. Mas já era tarde. Os bares ligavam dizendo que todos os freqüentadores estavam ouvindo, que o lance estava legal, etc. Os jornais começaram a ligar – a maioria dos plantonistas também ouviam a rádio e eram meus amigos. Queriam detalhes porque as chefias já estavam sabendo da história, que parecia ser séria uma vez que um cara de uma rádio estava anunciando. Ai, meu Deus! O que é que eu estou fazendo, comecei a me perguntar. Teve até jornal que insistiu em mandar repórter e fotografo para o Morro da Polícia na tentativa de registrar a passagem do disco voador.
O que fazer, então? A função continuava aumentando e o pessoal, empolgado, telefonava indicando luz no céu em diversos pontos da cidade e da grande Porto Alegre. Temendo repetir Orson Welles em a Guerra dos Mundos (que pretensão!), resolvi que era hora de dar um basta naquela brincadeira, ingênua a princípio, mas que estava se tornando séria demais e tomando contornos não previstos e tampouco esperados.
Mas como fazer para cortar aquele embalo que tomara conta de tanta gente num domingo à noite em Porto Alegre? Não tinha como entrar no ar e dizer que era apenas uma brincadeira e que estava tudo bem. Se fizesse isso, colocaria em risco minha reputação profissional e a da rádio, além da possibilidade de levar uns sopapos de alguns ouvintes mais exaltados.
Decidi que a melhor maneira de tratar aquele assunto seria de forma jornalística – atividade que eu também exercia como chefe de reportagem da Rádio Gaúcha – e buscar alguém que pudesse esclarecer aquelas estranhas luzes vistas pelos ouvintes nos céus da cidade. Mas aí surgia outro problema. Como encontrar alguém que entendesse desse assunto aquela hora da madrugada? Eu não tinha nenhuma “fonte” (uma pessoa credenciado para falar sobre determinado assunto) naquela área. Para evitar problemas decidi que ficaria no ar até encontrar uma solução para aquela maluquice.
Então continuei tocando música, atendendo ao telefone, conversando com os ouvintes e falando – bem menos – sobre o Disco Voador em Porto Alegre. Enquanto a imaginação das pessoas continuava solta, eu me consumia na tentativa, sem sucesso, de conseguir encontrar alguém para elucidar o caso. Precisava de uma fonte para esclarecer se havia mesmo, ou não, um disco voador sobrevoando a cidade naquela fatídica noite de domingo. A minha salvação surgiu de forma tão inesperada como começou toda a função: Pelo telefone, através de ouvintes.
Lá pelas três e meia da manhã tocou o telefone e no outro lado estava um ouvinte que era da área e tinha condições de esclarecer o caso, para meu imenso alívio. Eu já imaginava o mico no outro dia quando aparecesse nos jornais a notícia do radialista que anunciou um disco voador na cidade na noite anterior, causando enorme rebuliço na capital gaúcha e arredores. Era dose!
Para minha sorte o ouvinte que ligou era do setor de astronomia de uma importante universidade gaúcha e também estava ouvindo a rádio quando eu comecei com a brincadeira. Como ele e uns colegas eram ouvintes assíduos e consideravam bastante o meu horário, se dirigiram até os laboratórios e passaram a vasculhar o céu da noite portoalegrense em busca do comentado disco voador.
Depois de longa observação eles encontraram as luzes a que eu e os ouvintes nos referíamos: Tratava-se de um balão daqueles com fogo, dos grandes, que dava a impressão de uma nave espacial devido a ilusão de ótica e que pairava sobre o Morro do Ipa, além de uma tal de estrela refratária, sobre o Rio Guaíba, que dava a impressão de piscar e enganava a visão das pessoas. Confesso que não consegui sequer registrar o nome do ouvinte salvador, mas anotei suas credenciais e, se não fossem verdadeiras, pelo menos tinha alguém gabaritado desmentindo aquela confusão que eu armara sem querer.
Gravei a explicação, coloquei no ar, encerrei o meu horário enfatizando que não existia disco voador nenhum e fui para casa, tentar dormir. É claro que não consegui pregar o olho. E até hoje costumo não ficar olhando muito para o céu à noite com receio de ver um disco voador mesmo e não acreditar pensando tratar-se de uma piração qualquer.
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