Fala Sério! Estórias e história do Rádio Gaúcho

Blog do jornalista e radialista Isaias Porto, com estórias vivenciadas por este profissional durante sua trajetória de mais de 30 anos de atuação no rádio do Rio Grande do Sul e que também contam um pouco da história recente desse veículo no Estado

9/2/10

O Disco Voador da Ipanema

Uma das histórias no Rádio em que estive envolvido e que mais me marcou aconteceu no tempo da Ipanema. Depois de três anos fazendo o horário da manhã, das seis às 10 horas (quase sempre eu gravava no dia anterior a programação das seis às sete horas, para não ter que chegar tão cedo), decidi mudar. Acertei com o Nilton Fernando, o gerente da Rádio, que passaria a fazer a madrugada, entre meia noite e três da manhã, logo depois do horário da Katia Suman.

Foi uma beleza! Dois meses depois que eu entrei no ar no novo horário, a rádio passou para o primeiro lugar no IBOPE. Não era pouca coisa! Até me rendeu um convite para ir trabalhar na rádio Cidade. E o esquema de programação era aquele de sempre: Eu conversava com os ouvintes pelo microfone e eles comigo pelo telefone. Aí eu anotava as músicas que eles pediam e as rodava, apresentava algumas notas do dia que considerava importantes, garimpava com amigos e ouvintes algumas musicas diferentes e pronto. Mas sempre participava da loucura geral que se estabelecia nas madrugas da Ipanema. Era bem isso!

Mas quem está no rádio, no ar, sozinho num estúdio, tem sempre aquela desconfiança: Será que tem mesmo alguém me ouvindo? Quantos serão? A gente fala para o nada, principalmente na madrugada, pois na emissora tem apenas o guarda lá na portaria. E isso se torna mais grave numa noite de domingo para segunda-feira, quando todo mundo está mais interessado em se preparar para o reinicio das atividades no outro dia pela manhã.

Assim sendo, cheguei na rádio à meia noite de um domingo, entrei no ar e coloquei uma música. Como sempre, o telefone tocava muito, embora nestes dias diminuísse um pouco. Num dos telefonemas, um maluco de um ouvinte afirmava estar vendo umas luzes se movendo no céu, lá pelos lados do Morro do IPA. Gostei daquela piração, dei uma conferida na janela da rádio de onde se podia observar a região referida e, de certa forma, também me pareceu existir uma estranha luz se movendo por lá.

Não tive dúvidas. Como naquela época estávamos vivendo o Plano Cruzado, do falecido ministro Dilson Funaro, voltei ao ar, abri o microfone e lasquei:
- Um ouvinte me ligou há pouco dizendo que existe uma luz se movendo no céu, lá pelos lados do Morro do IPA. Bem que poderia ser um disco voador, que veio de outro planeta nos fazer uma visita e revelar como é que se resolvem as questões econômicas por lá. Será que eles tem Plano Cruzado e estas coisas? Pô, disco voador, vem aqui na rádio me explicar isso! Nós temos um espaço bem grande para estacionar aqui ao lado do prédio da Rede Bandeirantes. Inclusive tem um instrumento bem parecido com um disco voador (a antena parabólica utilizada para captar o sinal da TV e das rádios da rede).

Coloquei outra música e continuei atendendo os telefonemas, que começa-ram a se multiplicar de maneira fantástica. Era gente que estava vendo também as tais luzes se movendo, uns estavam de lunetas, binóculos e sei lá o que mais. Era ouvinte das cidades da grande Porto Alegre dizendo a mesma coisa, todos extremamente excitados com a história. De novo entrei no ar, satisfeito com a onda formada.
- Pessoal, tem mais gente vendo. Que legal! Reforço o convite para o disco voador vir aqui nos visitar. Que tal uma entrevista com o extraterrestre?

Os telefonemas continuaram e a brincadeira foi aumentando, envolvendo muita gente na cidade. Aí eu comecei a levar medo, porque me dei conta do rolo que poderia estar sendo armado. Imagina só, um maluco numa rádio com a melhor audiência do horário, na madrugada, dizendo que tinha um disco voador sobrevoando a cidade. Some-se a isso a maluquice geral das pessoas – especialmente dos ouvintes daquele horário – e pronto! Estava feita uma grande e séria confusão.

Passei a tentar contornar a situação. Mas já era tarde. Os bares ligavam dizendo que todos os freqüentadores estavam ouvindo, que o lance estava legal, etc. Os jornais começaram a ligar – a maioria dos plantonistas também ouviam a rádio e eram meus amigos. Queriam detalhes porque as chefias já estavam sabendo da história, que parecia ser séria uma vez que um cara de uma rádio estava anunciando. Ai, meu Deus! O que é que eu estou fazendo, comecei a me perguntar. Teve até jornal que insistiu em mandar repórter e fotografo para o Morro da Polícia na tentativa de registrar a passagem do disco voador.

O que fazer, então? A função continuava aumentando e o pessoal, empolgado, telefonava indicando luz no céu em diversos pontos da cidade e da grande Porto Alegre. Temendo repetir Orson Welles em a Guerra dos Mundos (que pretensão!), resolvi que era hora de dar um basta naquela brincadeira, ingênua a princípio, mas que estava se tornando séria demais e tomando contornos não previstos e tampouco esperados.

Mas como fazer para cortar aquele embalo que tomara conta de tanta gente num domingo à noite em Porto Alegre? Não tinha como entrar no ar e dizer que era apenas uma brincadeira e que estava tudo bem. Se fizesse isso, colocaria em risco minha reputação profissional e a da rádio, além da possibilidade de levar uns sopapos de alguns ouvintes mais exaltados.

Decidi que a melhor maneira de tratar aquele assunto seria de forma jornalística – atividade que eu também exercia como chefe de reportagem da Rádio Gaúcha – e buscar alguém que pudesse esclarecer aquelas estranhas luzes vistas pelos ouvintes nos céus da cidade. Mas aí surgia outro problema. Como encontrar alguém que entendesse desse assunto aquela hora da madrugada? Eu não tinha nenhuma “fonte” (uma pessoa credenciado para falar sobre determinado assunto) naquela área. Para evitar problemas decidi que ficaria no ar até encontrar uma solução para aquela maluquice.

Então continuei tocando música, atendendo ao telefone, conversando com os ouvintes e falando – bem menos – sobre o Disco Voador em Porto Alegre. Enquanto a imaginação das pessoas continuava solta, eu me consumia na tentativa, sem sucesso, de conseguir encontrar alguém para elucidar o caso. Precisava de uma fonte para esclarecer se havia mesmo, ou não, um disco voador sobrevoando a cidade naquela fatídica noite de domingo. A minha salvação surgiu de forma tão inesperada como começou toda a função: Pelo telefone, através de ouvintes.

Lá pelas três e meia da manhã tocou o telefone e no outro lado estava um ouvinte que era da área e tinha condições de esclarecer o caso, para meu imenso alívio. Eu já imaginava o mico no outro dia quando aparecesse nos jornais a notícia do radialista que anunciou um disco voador na cidade na noite anterior, causando enorme rebuliço na capital gaúcha e arredores. Era dose!

Para minha sorte o ouvinte que ligou era do setor de astronomia de uma importante universidade gaúcha e também estava ouvindo a rádio quando eu comecei com a brincadeira. Como ele e uns colegas eram ouvintes assíduos e consideravam bastante o meu horário, se dirigiram até os laboratórios e passaram a vasculhar o céu da noite portoalegrense em busca do comentado disco voador.

Depois de longa observação eles encontraram as luzes a que eu e os ouvintes nos referíamos: Tratava-se de um balão daqueles com fogo, dos grandes, que dava a impressão de uma nave espacial devido a ilusão de ótica e que pairava sobre o Morro do Ipa, além de uma tal de estrela refratária, sobre o Rio Guaíba, que dava a impressão de piscar e enganava a visão das pessoas. Confesso que não consegui sequer registrar o nome do ouvinte salvador, mas anotei suas credenciais e, se não fossem verdadeiras, pelo menos tinha alguém gabaritado desmentindo aquela confusão que eu armara sem querer.

Gravei a explicação, coloquei no ar, encerrei o meu horário enfatizando que não existia disco voador nenhum e fui para casa, tentar dormir. É claro que não consegui pregar o olho. E até hoje costumo não ficar olhando muito para o céu à noite com receio de ver um disco voador mesmo e não acreditar pensando tratar-se de uma piração qualquer.

criado por iaporto    13:24:19 — Arquivado em: Sem categoria

12/4/07

E o jogo?

A vida está constantemente oferecendo ensinamentos àqueles que estão dispostos a recebê-los. Uma coisa que sempre se disse no meio radiofônico é que trabalhar no interior era uma grande escola para quem pretendia seguir carreira nesse veículo. Embora essa verdade não seja tão importante hoje em dia, a escola do interior serviu em muito para mim nos sete anos em que trabalhei em rádios de Cachoeira e de Santa Maria. Foi lá que cometi diversos erros, típicos de um iniciante, e dos quais tenho a certeza de que soube retirar boas lições para a vida e para a profissão.
 
Uma das coisas que se aprende com a prática do rádio é não fazer perguntas abertas demais e nem fechadas demais. Muito menos perguntas que ensejem respostas que podem derrubar o entrevistador. Nas perguntas abertas demais o entrevistado pode ser tentado a discorrer longamente sobre o assunto, uma vez que o repórter o instigou a isso. Perguntas tipo “como o senhor vê o futuro da economia brasileira” são um achado para os prolixos – aqueles que gostam de fazer uma vírgula no ponto para não dar chance ao entrevistado de cortar a resposta.

Ao mesmo tempo, uma pergunta muito fechada (“o senhor gostou do espetáculo?”) pode ensejar uma resposta extremamente objetiva (“gostei”) e acabar com a entrevista. O ideal é fazer perguntas que conduzam o entrevistado a dar uma resposta contendo uma apreciação sobre o tema ou discordando da pergunta, sem que se sinta afrontado. Uma experiência altamente negativa eu tive com um jogador do Internacional de Santa Maria, muito meu amigo e que infelizmente já faleceu. O goleiro Deca era bastante experiente à época – final dos anos 70 – tendo passado inclusive pelo Grêmio.

Num jogo na Baixada Melancólica, o Estádio Presidente Vargas, em Santa Maria, ao final da partida fui em direção ao goleiro e lasquei a pergunta. “E ai, Deca, e o jogo?”. E a resposta veio de pronto: “O jogo foi isso que tu viu, né”. Pergunta mal feita, resposta direta e seca. O correto seria fazer uma pergunta a partir do resultado ou do próprio jogo, tal como “E ai, Deca, o jogo podia ser melhor, né?” tendo em vista que o resultado final foi um empate e o Inter SM estava jogando em casa.

Com esta pergunta ele estaria obrigado a dizer se considerava que a partida poderia ou não ser melhor e por que. Esses questionamentos já estariam implícitos na minha pergunta, diante do seu forte acento afirmativo. É claro que o jogador não tinha a mínima intenção de ser desagradável em sua resposta, tanto que continuou afirmando que achara ruim o resultado e a equipe havia jogado mal por diversos motivos. Mas que a pergunta foi mal formulada e mereceu a resposta que teve, não há dúvida.

Vivendo, perguntando errado e aprendendo.

criado por iaporto    18:12:14 — Arquivado em: Sem categoria

4/4/07

O Nilton Fernando

Vanguarda Jovem era o programa que o Nilton Fernando apresentava na Rádio Cachoeira, no horário da tarde. Como ouvinte assíduo, lembro de um refrão desenvolvido pelo apresentador e que era uma espécie de marca registrada sua: “Baby, Baby, olha a hora!”. Aquela bela voz e um dinamismo juvenil encantavam a audiência e consagraram um dos melhores momentos da Rádio Cachoeira – por isso mesmo chamada por nós, através de vinhetas em sua programação, de a Escola do Rádio.

Nesse período o rádio estava descobrindo um aliado muito importante para retomar a sua importância junto ao público: O telefone. Acontece que depois de seu auge enquanto veículo de comunicação lá pelos dos anos 30 e 40 do século passado, com o advento da televisão o veículo perdeu sua força e foi relegado a um segundo plano. Levando-se em conta que a velocidade da vida àquela época era muito inferior aos dias atuais, o rádio só conseguiu se recuperar deste baque lá pelos anos 60, início dos 70, quando a verdadeira revolução cultural imposta pelos jovens em todo o mundo chegou ao Brasil. 

Não é a toa que nessa época, por exemplo, surgiu em Porto Alegre uma rádio como a Continental, canalizando todos os anseios do público jovem que não era atendido pelo mercado – acostumado com a sobriedade de uma sociedade comandada pelos mais velhos. Ou seja, a revolução de costumes trazida pelo movimento hippie, como não poderia deixar de ser, chegou também ao rádio, que aproveitou a ocasião para ressurgir como um grande veículo de comunicação de massa. E isso trouxe uma série de inovações para o setor, incorporadas aos poucos no dia a dia do veículo.

Uma delas, como dizia, era o uso do telefone – permitido a interatividade com o público. Com isso o ouvinte deixava a passividade de apenas ouvir o que a rádio oferecia e passava a ter a oportunidade de interferir na programação da rádio através da solicitação de uma música, diretamente no ar. Esse expediente era muito bem utilizado pelo Nilton Fernando, que comandava o Vanguarda Jovem na Rádio Cachoeira. Infelizmente para mim, quando comecei a trabalhar na Rádio o Nilton já tinha vindo para Porto Alegre, para trabalhar na TV Difusora, à época.

Logo em seguida ele também iniciou um programa na Rádio Difusora AM, à tarde. Naquela época as rádios AM não tinham essa postura mais jornalística como muitas mantém hoje e concentravam a sua programação na parte musical apenas. É claro que algumas transmitiam notícias e futebol, mas o forte era a música. No mínimo a programação musical era um complemento importante para aqueles horários em que não havia os programas jornalísticos. Mas no Estado era praticamente só a Guaíba que mantinha uma programação nesses moldes, tanto que consagrou o refrão “a música da Guaíba” e tinha um programa chamado “Trabalhando com Música”. As outras todas concentravam sua programação na parte musical mesmo.

O programa do Nilton na Difusora AM era o Programão da Tarde e ele rodava muita música, de boa qualidade, que a gente ouvia atentamente para conhecer as novidades nessa área. Muitas vezes ele gravava diversas músicas novas em fita rolo e mandava para a gente lá na Cachoeira, o que era muito bem aceito pois a indústria fonográfica também não era tão ágil quanto hoje e os lançamentos demoravam para chegar na cidade. Dessa forma tínhamos a oportunidade de rodar com primazia na cidade músicas recém lançadas e que só chegavam às lojas um bom tempo depois.

Nessa época eu apresentava um programa denominado Clube do Ouvinte, das 9 e meia ao meio dia. A mecânica do programa era a seguinte: Cada meia hora era programada por um ouvinte, que enviava seus pedidos através de carta. Cinco cartas por dia eram escolhidas para o programa seguinte. As músicas solicitadas eram geralmente muito populares, mas como o ouvinte indicava apenas quatro ou cinco, sempre sobrava um tempinho para a gente rodar uns sons diferentes, mais qualificados, tipo Milton, Chico, Bethania, Led Zeppelin, etc. Felizmente o pessoal foi gostando e, aos poucos, alterando seus pedidos. Graças ao Nilton Fernando e suas fitas rolos repletas de músicas de boa qualidade, que ele nos enviava desde Porto Alegre.

Numa ocasião em que esteve em Cachoeira e foi nos visitar o Nilton gravou umas vinhetas para o meu programa, o que me deixou muito feliz. Em 1982 trabalhamos juntos pela primeira vez, na Bandeirantes FM, ele como o chefe e eu como redator e locutor daquela simpática rádio que acompanhou uma espécie de retomada da efervescência cultural de Porto Alegre. Depois, passamos juntos para Ipanema FM, onde fiquei até 1987, eu como locutor e redator e ele como responsável pela rádio.

criado por iaporto    20:12:34 — Arquivado em: Sem categoria

Que golaço!

Outra que aconteceu com o ex-goleiro do Internacional de Santa Maria, o já falecido Deca. Em outro jogo do equipe na Baixa Melancólica, possivelmente contra o Guarani de Bagé, quase ao final do primeiro tempo o atacante do time adversário recebeu a bola na entrada da grande área e, de primeira, chutou no ângulo. O goleiro se atirou em direção à bola, mas como o chute fora muito forte e colocado, não houve a mínima condição de ele defender. Foi um golaço, daqueles clássicos do futebol, que fazem o encantamento artístico desse esporte tão apreciado pelo povo brasileiro e que, infelizmente, tem se reduzido bastante diante da cerrada marcação promovida pelas equipes hoje em dia.

É claro que enquanto a equipe que marcou um gol desses comemora efusivamente, ainda mais sendo no estádio do adversário, o time que sofreu o gol não pode gostar, especialmente por estar jogando em seu estádio – onde existe um compromisso ainda maior com a vitória. No caso do jogo do Inter SM, logo após esse golaço, o juiz encerrou o primeiro tempo. Eu, como repórter da Rádio Imembuí, corri para dentro do campo e o primeiro jogador que apareceu foi o goleiro Deca. Não tive dúvidas e lasquei a pergunta:
- Que golaço o cara fez, hein Deca!
Ele, na maior calma, respondeu:
- Golaço pra ele. Pra mim foi uma bosta. Não consegui defender!

De novo o problema da colocação da pergunta! Se bem que no caso nem chegou a ser uma pergunta, pois na verdade foi uma afirmação. Embora verdadeira, tudo vai depender do ponto de vista de quem observa. O torcedor do Guarani de Bagé devia estar doido de felicidade pelo gol. Já o do Inter de Santa Maria estava furioso, até mesmo com o seu goleiro, por ter levado aquele gol – embora fosse impossível de defender. Imagina para o goleiro que levou o gol! Assim, a minha colocação foi absurda, pois deveria ter sensibilidade para entender o processo e habilidade para fazer a observação. Poderia ser algo do tipo “que sorte deu o cara naquele chute. A bola foi indefensável!”.

A pergunta colocada desta forma permitiria ao jogador explicar o lance e dizer por que não foi possível fazer a defesa. Não cabe ao goleiro que sofreu o gol ficar analisando se foi belo ou não. Ele tem que manifestar sua visão sobre o lance e dizer o que fez ou não conseguiu fazer. Essa compreensão deve estar clara ao repórter para evitar contratempos com respostas mais fortes, pois muitas vezes no calor da disputa o jogador não consegue medir suas palavras. Cabe ao jornalista ter a sensibilidade para sentir o momento certo de falar com o entrevistado e a forma de apresentar a pergunta.

É aquela história de escola do interior. Lá a gente até podia cometer esse tipo de “babada”, como se chama no rádio. Primeiro porque o comprometimento de audiência não era tão grande como numa rádio de nível estadual e, segundo, porque a gente era jovem e, como tal, tinha uma certa isenção para cometer erros.

Depois é que a coisa complica!

criado por iaporto    20:08:19 — Arquivado em: Sem categoria

3/4/07

Paradoxo

As mancadas no rádio são, infelizmente, muito normais. Acontece que quem fala, ao vivo, sempre corre este risco e é muito difícil evitar que alguma coisa escape de vez em quando. As histórias e estórias sobre isso nesse veículo são famosas no meio e muitas até ganham grande repercussão devido ao seu teor ou abrangência. Embora poucas sejam percebidas na hora em que acontecem diante da agilidade do rádio – uma de suas principais características – muitas são recuperadas e, mais tarde, até chegam ao grande público. A maior dificuldade em divulgá-las é porque podem comprometer aqueles que as cometeram e isso, geralmente, é algo desagradável.

No caso deste livro, como eu mesmo vou contar algumas que ocorreram comigo, não há nenhum problema. As outras que vou contar e não foram cometidas por mim, prometo me esforçar para não revelar os nomes. A primeira mancada que dei no rádio eu lembro muito bem. Foi numa de minhas primeiras transmissões esportivas, de um jogo do Cachoeira Futebol Clube, no famoso estádio Joaquim Vidal da capital brasileira do arroz, como se chamava a cidade de Cachoeira naquela época. Ainda meio perdido e sem o “tempo” da transmissão, lá estava eu na abertura da jornada, logo após ser chamado pelo narrador, a deitar o verbo.

A minha primeira frase com um microfone numa mão, fone nos ouvidos e a papelada com escalação, arbitragem, reservas, treinador, etc., na outra, eu havia ensaiado por horas em casa. Embora a realidade seja bem diferente para quem não está acostumado com a mecânica de uma transmissão onde é preciso puxar o fio, ouvir os outros e, o pior, ouvir a sua própria voz no fone, fui em frente. “Muito bem fulano, estamos aqui na pista atlética do Joaquim Vidal, onde o Cachoeira Futebol Clube joga nesta tarde contra o …..”, e passei a dar o nome dos jogadores que iniciariam a partida. Fiz tudo como treinado e acho que saiu tudo bem, pois até hoje ninguém me “corneteou” pela minha estréia.

Mas voltando a falar da primeira mancada, lembro que estava no meio do campo e fui entrevistar um jovem meio campista vindo do Caxias, de nome César, que fora contratado pela equipe do Cachoeira e estava estreando. Fiz aquelas perguntas normais e inteligentes sobre como ele estava se sentido no novo clube, as suas características, enfim, as coisas que os repórteres sempre perguntam. Mas, para incrementar a minha entrevista, resolvi perguntar mais uma coisa com o objetivo de dar mais consistência ao trabalho e marcar como um repórter esperto que não se limitava às mesas questões, etc.

Convém salientar que o jogador era uma pessoa bem instruída, educado, e que estudava educação física, fugindo um pouco do padrão médio do jogador de futebol. Além disso, era bem esclarecido e conseguia se expressar com relativa facilidade. Pois bem, lá fui eu solicitar a ele uma comparação do futebol caxiense com o praticado em Cachoeira do Sul. Só que eu me atrapalhei (bastante) e lasquei: “César, por favor, você poderia traçar um paradoxo entre o futebol de Caxias e o daqui?”. Felizmente ele não traçou nenhum paradoxo e sim falou das diferenças entre as duas cidades em se tratando de futebol.

Na verdade, eu queria saber se era possível traçar um paralelo entre o futebol das duas cidades.

Foi mal!

criado por iaporto    13:58:16 — Arquivado em: Sem categoria

O Começo

Não pretendo contar a história da minha vida. Até porque ela não tem interesse algum para quem não seja meu familiar. Assim sendo, vou relatar aqui a história do meu começo na radiofonia brasileira, na querida Cachoeira do Sul lá pelo meio dos anos 70 do século passado. Minha mãe tinha projetado para mim um futuro como "doutor" (confesso até hoje não ter descoberto exatamente qual a intenção dela com isso) e certamente ela não deve ter ficado satisfeita quando comecei a trabalhar num negócio considerado pela média da população da cidade como atividade de gente inferior, ou seja, algo que não merecia o respeito das pessoas "de bem".

Nesse ambiente preconceituoso era mais do que uma barra enfrentar o desafio de trabalhar num veículo de comunicação. Aliás, a noção que se tinha dos meios de comunicação naquela época era completa e amplamente diferente da atual. Especialmente no interior, os empresários tinham a noção de que precisavam "ajudar" a rádio ou jornal da cidade e não entendiam esses veículos como fontes para ampliação de seus negócios. Felizmente isso se alterou radicalmente com o passar dos anos, graças ao aumento da competição entre os veículos por audiência e leitores e a qualificação cada vez maior dos profissionais do setor. Além, é claro, de um considerável aumento da competição no mercado que levou as empresas a utilizarem os veículos de comunicação cada vez mais como ferra-menta para incrementar suas vendas.

Fui parar no rádio por influência dos amigos. A turma se reunia para jogar e discutir sobre futebol e, não raro, acabava fazendo imitações das transmissões dos jogos pela rádio Guaíba, a grande emissora do Estado a época , especialmente nas coberturas esportivas. Como desde garoto eu tinha uma voz bastante grave (microfônica, como se dizia à época), aos poucos o pessoal começou a insistir em que eu devia trabalhar em rádio. Nesse meio tempo eu estava em pleno segundo grau e me questionava a respeito de que curso superior deveria fazer. Minha mãe queria que eu fosse "doutor", eu pensava em tocar os negócios da família (um armazém e um depósito de frutas com distribuição para toda a cidade) ou arrumar um emprego no Banco do Brasil.

Entre estas dúvidas começou a me tomar a idéia de fazer comunicação. Sinceramente, eu não tinha a mínima noção do que era isso, mas imaginava que se referia a lidar com o público. Além disso, eu gostava muito de rádio – que passava o dia todo ouvindo durante o trabalho, tanto no armazém como no depósito de frutas. Conhecia músicas, gravava diversas fitas num enorme gravador, pelo microfone, diretamente do rádio, resultando num som de baixíssima qualidade. Mas lá estava eu, ouvindo e acompanhando a programação de várias rádios, entre as quais a própria Cachoeira.

Com o incentivo da turma, me enchi de coragem e lá fui eu, numa manhã de segunda-feira, bem cedo, falar com o gerente da rádio, o Sr. Schneider Silva, que apresentava um programa chamado Matutino no Ar, até às 8 horas da manhã. Apresentei-me e com a maior cara de pau disse que queria trabalhar na rádio. Ele me atendeu gentilmente, me passou uns textos para eu ler – inclusive em inglês e francês, que derrubavam todo mundo, mas não me causaram problemas porque na época em estudava tradutor e intérprete no segundo grau, no João Neves – colégio que ficava bem perto da rádio.

Parece que ele gostou, pois me disse que assim que tivesse uma vaga mandaria me chamar. Sem muitas esperanças voltei às minhas atividades normais e esqueci dessa história. O meu pai costumava anunciar na rádio, num programa de dois amigos dele, um era o pai do Mauro Borba, e pagava esses anúncios diretamente a um cobrador que ia até o depósito de frutas recolher o dinheiro. Numa dessas visitas ele me deu um recado do gerente, que queria falar comigo. Prontamente fui lá e o Schneider Silva me comunicou que dispunha de uma vaga e estava interessado em me contratar, o que aceitei na hora. Fui trabalhar no setor de esportes, cobrindo as atividades diárias do Cachoeira Futebol Clube, no lugar do Laerte de Franceschi, que havia sido meu professor de Educação Física no colégio e que se transferira para a Rádio Guaíba, em Porto Alegre.

Até hoje recordo com saudade a primeira vez em que falei no ar. Antes dis-so, numa certa ocasião fui visitar um amigo que trabalhava como operador de som na outra rádio da cidade, a Princesa, e me espantei ao ver o locutor falando ao microfone. Aquele aparelho exercia uma estranha atração para a voz e aquilo me encantou. No mundo de fantasias que fazia na minha cabeça sobre o rádio, aquilo era tão diferente que me deixou perplexo.

Em realidade, é essa magia que faz o rádio ser o veículo tão apaixonante que é permitindo ao ouvinte soltar completamente a sua imaginação numa espécie de jogo com o locutor ou apresentador. Nas aulas sobre radiojornalismo sempre dizia aos alunos que o maior mérito do rádio é ser uma espécie de livro falado, deixando ao ouvinte a interpretação mais ampla daquilo que foi dito ao microfone. Não é a toa que um gênio como Orson Welles declarou preferir o rádio ao cinema porque no primeiro a tela era maior.

Mas voltando a minha primeira vez (e a primeira vez nunca se esquece!). Foi num programa sobre esportes no final da tarde. Naquele tempo a gente fazia com a maior naturalidade o que nas redações se chamava de “gilete press”, ou seja, recortava-se as matérias dos jornais lendo-as no ar como se tivessem sido escritas para o programa. Assim, fui apresentado como novo integrante da equipe, dei meu nome e comecei a ler o material. É claro que tremia e suava espetacularmente. Mas devo ter me saído razoavelmente, pois a partir daí me tornei um profissional de comunicação, apaixonado pelo veículo chamado rádio.

Desde então tenho trabalhado em diversas rádios, passando por Santa Maria, onde me formei em Jornalismo, em 1980, na faculdade de Comunicação, e em Porto Alegre. Como dizem, o rádio é uma espécie de "cachaça" que vicia quem dele se aproxima e quando a pessoa não está trabalhando nele, leciona ou escreve sobre ele.

Ou, pelo menos, continua ouvindo bastante.

criado por iaporto    13:51:27 — Arquivado em: Sem categoria
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